Foto: Quarta Kuir

[CUIRTICA]

18 Aug, 2021

Tentáculos

~ 17 min

por Fredda Amorim

PONTAS de lança apontadas em beiras de ABISMOS: corpas que (RE)existem

Por @FreddAmorim

Já comecei essa conversa várias vezes, 

Escuta

Respira

Já comecei essa escrita várias vezes…

Estamos cansadas, exaustas, tateando as beiras… 

res(PIRA)

Registro de Arthur Medrado (Pajubá 2016) 

Horas dentro de minha própria cabeça, horas dentro do peito e por horas fora da pele dentro das redes. Pensei em como começar uma critica de teatro e/ou de arte ou como aqui vamos chamar de CUIRTICA porque os parâmetros pensados para se estruturar uma critica não nos cabe mais assim com tantos outros lugares nos transborda. Estamos no centro de uma encruzilhada ou como conversamos lá no começo, na abertura, pela mediação de Dodi Leal, estamos no meio de uma ENCRUZITRAVA. Esta CUIRTICA é um interruptor que pretende deslocar algo/ou não. Neste dia estávamos ali, remotas (02 de junho), mais uma vez sob a mediação carinhosa de Bremmer Bramma abrindo os tentáculos de mais uma edição da Quarta Kuir. “Isso não é um festival, é uma ponta de lança afiada”. No escopo dessa conversa/encontro, em que me debruço sobre a experiência do que aqui/ali denomino CORPAS, falamos de nós para (nos) entender (n)o mundo, porque a corpa e as vivências que a ela pertencem moldam a maneira com que (nos) reconheço (n)o mundo. 

Opto pelo termo CORPA pois o corpo quando escrito e reposicionado como feminino pode transgredir os cerceamentos da masculina linguagem em suas potências de expressão. Se a linguagem constrói, queremos destruir o corpo para abrir alas às corpas, monstruosas, não-cisgêneras, desobedientes. Assim com outras manas T já tem feito a tanto tempo e em tantos lugares. A primeira vez que escutei esse termo foi pela voz de Júhlia Santos, artista e ativista T, em uma das varias rodas de conversa que participamos juntas, ela por sua vez teve conhecimento desse termo através de Vulkanica Pokaropa, artista e ativista T. 

Vejo essas corpas, que se encontram, como uma grande semente que se -transmuta em raiz (germina, brota, frutifica), corpas como fios que se entrecruzam num rizoma forte, firme e babadeiro. Penso também no encontro dessas corpas como uma grande REDE que é tecida cotidianamente a partir do momento em que falamos de nós e nos conectamos. Penso que o que motiva os nossos encontros é o AFETO. Penso em tantas possibilidades. Quando falo em nossas corpas, estou pensando em corpas que NÃO SE CONFORMAM, corpas abjetas, corpas NÃO RECOMENDADAS, corpas BIXA, corpas REVOLTADAS, corpas DESEMBESTADAS, corpas LÉSBICAS, corpas ELENÃO, corpas QUEM MATOU MARIELE FRANCO? Corpas QUE IMPORTAM, corpas TRAVA. 

Abertura Quarta Kuir Tentáculos

Além dos AFETOS, que na maioria das vezes nos agrupa, oque nos une também é a DOR, como muito pontualmente nos coloca Wlima Piedade em seu livro intitulado DORORIDADE. Vilma é uma intelectual brasileira, ativista, colunista do canal Pensar Africanamente e também do Coletivo Pretaria e escritora.

 A dororidade se baseia no mesmo objetivo da sororidade, porém se direciona às mulheres negras e à luta particular que elas enfrentam. Nesse caso, a luta não se dá por somente ser mulher, mas por ser mulher negra, fato assustadoramente perigoso no Brasil, uma vez que o Mapa da Violência mostrou que, enquanto o homicídio de mulheres negras experimentou um crescimento de 54,2% num período de dez anos, o homicídio de mulheres brancas caiu 9,8% no mesmo período. 

Somando a essas estatísticas, segundo dossiê da ANTRA foram mais de 80 casos de morte por violência de gênero no Brasil direcionado às pessoas transvestigenere. ROBERTA PRESENTE. Porque não considerar também que o que nos une, oque nos agrupa enquanto pessoas Trans (trans masculinos, travestis, mulheres trans, pessoas Não binárias) em espaços e lugares de ACUIRLOMBAMENTO é também a DOR, as dores, o fracasso e a exaustão. 

Corpas marginalizadas e silenciadas dentro não só da academia, mas também de quaisquer outros espaços em que o discurso e as teorias relacionadas às nossas subjetividades são constituídos à revelia de nossas vivências concretas, sendo privados de nossa presença. Os tentáculos da QUARTA KUIR nesta edição apanharam todas as formas e possibilidades possibilitando a presença, escuta, troca e encontro com todas essas formas que buscam deslocar a feitura artística da vida, das amenidades e das potências de nossa existência. 

O cuirlombismo é também uma modalidade de (re)existência seja nas redes de atenção e intercâmbio (trocas, cuidados e liberdade) desde Palmares e Zumbi, no século XVII (Kilomba, 2009), seja na Década de 1980, quando Abdias do Nascimento evoca o “quilombismo” como espaços de resistência, liberdade e autonomia e seja enquanto Dodi Leal (2018) e Pêdra Costa (2017) apresentam a alteração da expressão queer para o CUIR no contexto latino-americano como uma prática de resistência anticolonial de gênero nos processos teatrais e nas práticas pedagógicas do CUirlombismo.

estamos morrendo, mas também estamos parindo. [Abigail Campos Leal]

O intuito deste ACONTECIMENTO, então, é também produzir discurso por meio do diálogo com vivências LGBTQIA+, KUIR/CUIR/QUEER, negras, em uma perspectiva transfeminista que busca, numa dimensão epistemológica, valorizar nossos saberes, de modo que o pensamento que se produz na e a partir das corpas se apresentem, aqui, como possíveis po-éticas de (re)existência. Para Nina Caetano (2019) “o termo PO-ÉTICAS DA [RE]EXISTÊNCIA abarca as práticas artísticas que investigam processos históricos de violação, apagamento e silenciamento de determinados corpos, bem como aquelas que constroem poéticas e políticas da cena que sejam contra hegemônicas, de modo que promovam a “multiplicidade de vozes”, desestabilizando “o discurso autorizado e único que se pretende universal” e as normas e cânones estabelecidos”. 

“Involuntários da Pátria” com Fernanda Silva

É importante dar evidência à VIDA, às práticas, aos encontros, viabilizando diálogos com as reflexões teóricas elaboradas e pensadas a partir dessas práticas, para possibilitar que as corpas subalternizadas e silenciadas falem por si só, se valendo de seu lugar de fala ultrapassando esses muros que cercam os saberes acadêmicos de fora pra dentro, afim de DESLOCAR o pensamento de dentro do espaço institucional e de dentro pra fora sabendo que a DECOLONIALIDADE é também uma questão de pratica diária e cotidiana. Peço licença e assim como todes da PLATAFORMA BEIJO dedico esta ponta de lança à força extraordinária daquelas que nos antecederam. A todas as manas TRAVESTIS, MULHERES e HOMENS TRANS, BIXAS, LÉSBICAS, GAYS que, apesar de invisibilizadas, assassinadas e marginalizadas, criaram uma cultura pulsante e transformaram suas existências em ARTE, auxiliando na formação de pessoas mais humanas. Verdadeiros ATOS de (RE)existência e SUBVERSÃO

Assim, localizo a QUARTA KUIR, como um ato psicofísico de (RE)existência, no campo das Artes da Presença, mas, para além disso, esta “beira de ABISMO” se localiza dentro das redes que criamos, como texto-tecido-trama que nos enreda enredando as outras. Esse e tantos outros espaços que vêm sendo forjados diante do CAOS dentro e fora das peles também são modalidades de (re)existência, pontas de lança e interruptores no tempo espiralar. 

***

CUIRTIQUEPOESIA

recebo

recebemos

como uma carta de amor

esta ponta de lança

afiada

CUIRTICA

essa dança lançada

apontada a

MÍTICA

destas corpas e formas

sem normas e modas

TODAS JUNTES BRINCANDO NA RODA

espiralar

de um NEO saber

começamos em mesas que TRANSBORDARAM

performamos

MÚSICA TEATRO CINEMA DANÇA LITERATURA ARTES

censuradas pelo youtube

não nos enredamos

fizemos

DANÇA

ORGIA

MANIFESTO

e seguimos como Á R V O R E

– terra e luz –

[bremmer bramma]

***

Cartaz de “Dança Orgia Manifesto”

Não se trata somente de responder questões, desejamos nos encontrar, falar e, a partir de um discurso que parte de dentro para fora da pele, de dentro para o encontro com outras falas e outras corpas, de dentro para o encontro com outras ARTES, estabelecer uma arte monstruosa que desloca todas as formas de um CIStema que corre insensatamente para encaixotar todos os corpos e corpas e conquistar uma manutenção impecável da norma. [fredda amorim]

Sarita Themonia na Quarta Kuir Tentáculos

***

Inquietações CUIRTIRCA ou para uma CURADORIA que coça o CU. *

 *só porquê CUIRTICA é uma palavra que faz rir 

Curadoria de cu não é rola. 

É o que então?

Curadoria de cu é aberta?

 Sensível? 

Cheia de nervos

O que essa curadoria curou

Posso pensar a curadoria como canal?

Que canal é esse?

O que ele revela? 

A curadoria me levou pra onde? 

O que ela conecta?

Quais olhos podem ver? 

Quantos olhos tem a palavra Curadoria?

O que alarga a curadoria?

Curadoria como MIRA ?

O que entra na Kuiradoria? 

Curadoria escuta

Essa cura tem cheiro de quê? 

Curadoria como po- ética

Como a curadoria pode ser formativa? 

Curar e criar são as mesmas coisas? 

Kura-a-dor como forma de resistência? 

Kuiradoria como mudança de hábito? 

O que resta depois da cura? 

Quantas tentáculos cabem na sua Kuiradoria? 

O que seus dedos e mãos curam? 

O que seus dedos e mãos curam nas redes sociais?

 O que você sentiu dessa Kuiradoria tentacular? 

Kuiradoria como forma de encontro

Kuiradoria como espaço aberto de invenção? Ou como invenção aberta?

Kuiradoria pra disputar na sua cara essa programação?

Quanto custa uma curadoria? E a cura? Quanto custa? 

O que a cura nos ensina?  

O que essa Kuiradoria nos ensinou? 

Como é uma Kuiradoria?

Cu-radoria como espaço de o-cu-pação?

Kuiradoria espiralar?

Com quantas perguntas se faz uma Kuiradoria?

kuiradoria como processo sem fim?

Qual a função da Kuiradoria para as corpas divergentes?

Kuiradoria são alianças?

Kuiradoria para rasgar a binaridade?

Kuiradoria de cu é que pisca. 

[Igui Leal]

Uýra Sodoma na Quarta Kuir Tentáculos

Mesa Performativa “Literatura Pela Boca” com Abigail Campos Leal e Bianca Manicongo

 
Fredda Amorim

Antes de qualquer coisa sou bixa, preta de Asè que TRANSita pelo mundo. Professora no curso de pós graduação: Lideranças Transformadoras do BBI of Chicago – Business Behavior Institute, Mestra em Artes cênicas pela (UFOP) Universidade Federal de Ouro Preto, Historiadora e professora de história(2009); e Doutoranda em Teatro na UDESC. Tenho me relacionado com as Artes, com a performance, intervenções urbanas, teatro, poéticas de si, processos de criação, experimentação e me debruçado em pesquisas, ações e práticas voltadas para as questões de gênero, raça e classe junto a PLATAFORMA QUEERLOMBOS composta por outres pesquisadores, artistes e pessoas LGBTTQI-+.